Publicado por: Real Trás-os-Montes e Alto Douro | Maio 29, 2009

“Em 100 anos, a República não construiu um único metro de estrada nova em Tabuaço”

Autarca do PSD ameaça desfilar pelas ruas de Tabuaço com a bandeira da Monarquia

Aos 58 anos, depois de ter passado vinte sem ninguém o ouvir dar um murro na mesa, fez uma ameaça que, apesar de inofensiva, tem o mesmo efeito de uma declaração de independência: “Se até ao dia 5 de Outubro de 2010 [data do centenário da República] não houver um metro de estrada nova em Tabuaço, nesse dia, eu, humildemente, visto uma túnica e coloco uma coroa de espinhos e, em gesto de agradecimento, empunho a bandeira da Monarquia, porque a da República não nos valeu de nada”.

(9 de Março de 2009)

(Tabuaço é uma vila portuguesa no Distrito de Viseu, Região Norte e subregião do Douro, com cerca de 1 800 habitantes)desde 1989, parece saído do universo literário de Camilo Castelo Branco ou de Eça de Queiróz. Há algo de romanesco na sua estatura meã e no seu ar civilizado, discreto, ponderado, religioso até, embora não seja fácil encontrar um epítome na vasta obra de ambos. Mas, para abreviarmos o retrato, digamos que tem um pouco de Jacinto, de “A Cidade e as Serras”, e de Calisto Elói, de “ A queda de um anjo”.

No seu caso, “iluminou-se” em Lisboa, onde se formou em Direito na Universidade Clássica, e veio fazer carreira para uma das mais pacatas e isoladas vilas durienses, rodeada de fraguedos, despenhadeiros e vales ancaixados cobertos de vinhas e bosquetes.

Aos 58 anos, depois de ter passado vinte sem ninguém o ouvir dar um murro na mesa, fez uma ameaça que, apesar de inofensiva, tem o mesmo efeito de uma declaração de independência: “Se até ao dia 5 de Outubro de 2010 [data do centenário da República] não houver um metro de estrada nova em Tabuaço, nesse dia, eu, humildemente, visto uma túnica e coloco uma coroa de espinhos e, em gesto de agradecimento, empunho a bandeira da Monarquia, porque a da República não nos valeu de nada”.
O autarca não aceita que num país onde se quase todas as semanas se anuncia uma auto-estrada nova, haja um concelho, o seu, onde, em quase 100 anos de República, “não foi construído um único metro de estrada nova”. “Fizeram-se alguns melhoramentos, mas as estradas que existem são do tempo da Monarquia”, lembra. “Até parece que Tabuaço foi criado pelo demónio, para ser esquecido pelos sucessivos governos”, queixa-se. E as estradas que existem são feitas de curvas e contracurvas, seguindo rentes a despenhadeiros. “É um martírio chegar e sair de Tabuaço. As pessoas até chegam cá amarelas”, continua Pinto de Sousa.

A solução para acabar com o calvário actual passa por construir uma estrada nova entre Tabuaço e Armamar, com ligação ao nó de Valdigem da A24 e daqui para o resto do país e do mundo. A estrada faz parte do Plano Rodoviário Nacional desde o tempo de João Cravinho e já teve um estudo prévio, mas o seu custo apontava para 40 milhões de euros. O actual Governo e a empresa Estradas de Portugal (EP) acharam muito dinheiro para apenas 18 quilómetros de estrada e, para facilitar as coisas, José Pinto de Sousa já abdicou de dois quilómetros de uma variante a Tabuaço e aceita que a dimensão e o número de viadutos seja inferior. “Estou convencido que com menos de 25 milhões de euros se faz a estrada”, diz. A EP quer gastar ainda menos e estará a fazer um projecto mais modesto.

O autarca já aceita qualquer coisa, só quer que lhe façam a estrada. “Eu comungo dos ideias da República, da igualdade, da fraternidade e da solidariedade, mas este esquecimento de Tabuaço é um problema nacional que deve envergonhar todos os republicanos”, indigna-se. Ironia das ironias, foi em Tabuaço que, no século XIX, nasceu Abel Botelho, um dos elementos da comissão que concebeu a bandeira da República. Ate por isso, o autarca exige “mais respeito”.

“Quem me conhece, sabe que não sou nenhum provinciano que só pensa em Tabuaço. Também não gosto de carnavais e não tenciono passar por primo de Alberto João Jardim, mas chegou a hora de dizer basta”, diz. “Não tolero mais este esquecimento. Esta estrada é uma espinha atravessada no meu coração. E, se nada for feito até ao dia 5 de Outubro de 2010, sozinho ou acompanhado, vou mesmo desfilar pelas ruas de Tabuaço com a bandeira da Monarquia”, garante. Já dizia Miguel Unamuno que “a pior das iras é a ira dos mansos”.

Fonte: Jornal Público


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