Publicado por: Real Trás-os-Montes e Alto Douro | Junho 22, 2009

Os exemplos históricos do Norte

Sou abertamente contra a ideia de que o lugar onde se nasce não tem qualquer significado para esse local.

Só quem não é, saudavelmente bairrista, amigo das origens e grato ao meio onde se abrem os olhos ao mundo, será insensível ao acto de nascer, aqui, ali, ou acolá. Quando se ouvem os hinos nacionais, em jogos olímpicos, ou em qualquer outra competição desportiva que façam içar a bandeira e entoar o hino, poucos são aqueles que não se arrepiam de emoção, de patriotismo, de orgulho. E será esse sentimento, uma manifestação pecaminosa, ridícula, saudosista? Há quem assim pense e assim proceda, mais por complexo pseudo-cultural, social e político.

Ocorre-me abordar este tema porque na porfiada campanha que tenho vindo a travar por causa do ano e do local de nascimento de Afonso Henriques, uma ou outra voz, me repele pelo facto de ser insistente em defender as origens Vimaranenses do nosso Primeiro Rei.
Ocorre-me relacionar este sentimento com dois actos recentes em que participei, no meu pátrio Barroso. O primeiro desses actos históricos decorreu em 31 de Maio na Vila de Salto. A Câmara Municipal através das suas estruturas como o ecomuseu, os Bombeiros e o Coral de Montalegre, em sintonia com a Junta de Freguesia e população periférica, conjugaram esforços e vontades para invocarem São Nuno Álvares Pereira, elevado aos altares em 26 de Abril passado. A organização aprumou-se naquilo que dela dependia para homenagear, com a dignidade possível um dos maiores Portugueses de todos os tempos: Nuno Álvares Pereira (1360-1431). Talvez nem todos os meus leitores saibam que este Português, nasceu em Cernache do Bom Jardim, mas casou com uma Senhora de Reboreda, uma das dezanove povoações da freguesia de Salto, das Terras de Barroso. Essas Terras de Barroso não estavam confinadas à divisão administrativa que hoje funciona. Porque se alongavam até Cabeceiras de Basto, até Ruivães, até ao concelho de Terras de Bouro, até à Ponte romana de Chaves e até Ribeira de Pena.

Essa ilustre Barrosã, de Reboreda, tinha casado (1376), em primeiras núpcias, com Vasco Gonçalves Barroso, alcaide do Castelo de Montalegre e Senhor dessas Terras, títulos e privilégios que obviamente reverteram a favor da sua formosíssima Mulher, rica e «virgem», como dizem os cronistas. Era ela filha de João Pires Alvim (1320) e de Branca Pires Guiomar (1330). Álvaro Gonçalves Pereira, Prior do Crato e oriundo dos lados de Basto, espreitou nessa elegante Senhora, uma soberana ocasião para casar o seu 11º filho de uma prole de 32 que teve de três mulheres. O jovem Nuno não queria casar, preferindo a carreira das armas. Mas o Pai convenceu-o e o casamento fez-se. O solar de Alvim, de Pedraça, entre 1366 e 1388 foi uma espécie da Casa Real, porque o Mestre de Avis que viria a ser D. João I, tinha em Nuno Álvares o seu braço direito, o chefe supremo das Forças Armadas, o guerreiro que nunca perdeu uma batalha das muitas que travou, em Portugal (contra os Espanhóis) e no norte de África, na Tomada de Ceuta, em 1415.

Em Pedraça tiveram 3 filhos: dois rapazes que morreram cedo e uma filha, D. Brites que em 1401 casaria com D. Afonso, filho bastardo de D. João I. A fortuna de Leonor Alvim, os títulos honoríficos do marido (Conde de Barcelos), adicionados ao dote que o rei doou ao Filho, inspiraram Nuno Álvares Pereira a sugerir ao genro que formasse a Casa de Bragança que viria a ser mais rica do que a Coroa. A partir de 1640 foi essa poderosíssima Instituição que forneceu os monarcas, até 1910. Chaves foi o primeiro berço dessa Casa. E aí morreu a única filha de Nuno Álvares (em 1412). Mais tarde viria a tentar um paço em Barcelos, do qual desistiu para construir o de Guimarães (1422-1438). Atrás de um grande homem e de uma grande Causa teria de estar uma Transmontana de Barroso! Dia 31/5, Salto sentiu esse orgulho. E Reboreda entrou no roteiro dos caminhos da História de Portugal.
D. Duarte Pio e muitos elementos da Causa Real estiveram presentes e sentiram essa responsabilidade
.

No próximo dia 24, Guimarães vai celebrar os 881 anos do nascimento de Portugal. O Presidente da República, vai estar presente. Se a sua vinda à primeira capital do reino, tiver apenas esse intuito, cumprirá o seu dever moral, porque representa a Nação. Será também uma excelente ocasião para celebrar os 830 ano da Independência de Portugal, concedida em 1179 pelo Papa. Não cometerá erro nenhum se receber a medalha de Ouro da cidade, atribuída, a título póstumo, a Afonso Henriques pelos 898 anos do seu nascimento. Se cá vier para outros fins, ou seja: para celebrar os 900 anos do nascimento de Afonso Henriques, repto da Câmara de Viseu, que se antecipou, com base na mais pura ficção, estará o caldo entornado. Cavaco Silva oficializará uma fraude histórica. E esse erro nunca mais será reparado. Será o exemplo do presidiário que indultou por engano, aqui há uns anos.

Tenho um enorme orgulho em ser do Norte. Deste norte que acaba de homenagear (em Montalegre), João Rodrigues Cabrilho, o descobridor da Califórnia, com a dignidade com que, em 31 de Maio, homenageou Leonor Alvim. Bom seria que o PR viesse a Guimarães e cumprisse um dever histórico-Cultural: oficializar – isso sim – o dia 24 de Junho como o verdadeiro DIA UM DE PORTUGAL. Porque foi nesse dia que Portugal nasceu.

Por Barroso da Fonte, Dr.

Fonte: Notícias do Douro, 18/06/09

Nota: O destaque a negrito é nosso.


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