Publicado por: Real Trás-os-Montes e Alto Douro | Setembro 1, 2009

Sobre a República, artigo de Jaime Nogueira Pinto

Para o ano a República completa um século. Nasceu do ódio contra a monarquia e viveu num ambiente de ódio até ao 28 de Maio

É já para o ano que a República faz cem anos. Por pertinentes razões ideológicas fala-se da “república” como a I República. Os antifascistas excluíram o Estado Novo do conceito de república, pelo que a periodização é I República (1910-1926), Estado Novo (1926-1974), II República (1974 – por diante…). Se o Estado Novo for república, estamos na III República. Não faz grande diferença, mas é bom saber.
O regicídio, que abriu a porta à república, foi para acabar com o governo forte e pessoal de João Franco, que se tornara o homem a abater, pois jogava no terreno dos revolucionários, apelando às classes urbanas, num estilo popular ou populista, quando toda a gente estava farta dos partidos monárquicos tradicionais.

O clima de ódio – contra o rei, contra a dinastia, contra Franco – ficou registado num romance do qual toda a vida ouvi falar mas só agora li, “O Marquês da Bacalhoa”, de António de Albuquerque. O livro não deve nada ao estilo, é um panfleto de política – ficção que pinta uma corte libertina, corrupta, de maus costumes. O marquês da Bacalhoa (o rei) usa a mulher (a rainha) para controlar D. Álvaro de Luna, o personagem que encarna Mouzinho de Albuquerque, o herói “africano” que se suicidou. No romance, o rei e a corte são os responsáveis por este suicídio.
Este ódio cresceu e frutificou. A República não foi de brandos costumes: mataram-se padres logo no primeiro dia e, apesar das amplas liberdades, o regime foi expedito, através dos bandos “populares”, para dar cabo dos adversários – partidos e jornais monárquicos, católicos e mesmo republicanos e conservadores. Criou um modelo “à mexicana” ou “à Chávez”, em que as eleições eram concorrenciais, mas o governo – os democráticos – ganhava sempre.

O regime defendia-se com uma classe de “cidadãos vigilantes” – carbonários, “formigas brancas” e polícias oficiais ou oficiosos. A violência era livre. Daí episódios como o da enigmática “camioneta fantasma” que, na noite de 19 de Outubro de 1921, foi de porta em porta para capturar e assassinar republicanos, entre eles os heróis do 5 de Outubro – Machado Santos e Carlos da Maia- que se tinham passado para o sidonismo.
Muito do que veio depois, o resto do século XX português – o 28 de Maio e o autoritarismo salazarista – é incompreensível sem se perceber que a República foi (também) assim. A ver se nas celebrações se lembram destes detalhes…

Jaime Nogueira Pinto, Professor universitário

Fonte: Jornal i, 01/09/09


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