Publicado por: Real Trás-os-Montes e Alto Douro | Setembro 16, 2009

O TGV e a defesa nacional

“A perda de Portugal foi de puro sangue e por isso o ministro espanhol que não pense constantemente na reunião, ou não obedece à lei ou não sabe do seu ofício”.

José de Carvalhal y Lencastre (ministro de estado ao tempo do Rei Fernando IV, de Espanha)

Pode parecer, pelo discurso político e pelo que vem publicado nos “media” que a frase deste antigo ministro espanhol, está ultrapassada pelo tempo. Mas não está.
O TGV foi, finalmente, adiado, para depois das eleições. Melhor fariam se lhe colocassem um ponto final.

Sem embargo, este adiamento não foi feito pelos melhores motivos nem pelos que deviam ser assumidos. Trata-se apenas de um expediente eleiçoeiro.

As oposições não têm andado melhor. Desmultiplicam-se em declarações que se fundam na maioria dos casos na economia e nas finanças e sabe-se dos contorcionismos de que são capazes. Quando não dizem hoje o contrário do que disseram ontem.

Ora as principais razões pelas quais se devem pautar as decisões no âmbito de uma obra destas, devem ser razões estratégicas, e não outras. Não quer com isto dizer que as questões económicas e financeiras não sejam importantes e sabe-se que no caso vertente o ónus financeiro é enorme e o retorno económico será nulo, quiçá negativo. Mas pode-se até, optar por aguentar determinados encargos se isso for tido como um fundamento político ou estratégico fundamental. Assim deve-se sempre optar por uma decisão que contemple a opção estrategicamente mais segura e depois aquela que for economicamente mais rentável. Ora a decisão de construir o TGV em termos políticos e estratégicos favorece objectivamente o estado espanhol e nomeadamente a sua componente castelhana. Entra pelos olhos dentro que as vantagens económicas e de circulação de pessoas favorece os espanhóis pois são eles quem tem mais poder de penetração na nossa debilitada economia, cultura e tecido empresarial e financeiro. Tudo isto vai reforçar a implementação espanhola em Portugal e todos os seus “produtos” chegarão cá em melhores condições de concorrência. Poder-se-á argumentar que também do lado português se poderá aproveitar as oportunidades, mas todos nós sabemos que saímos a perder neste contexto. Para a União Europeia tal é indiferente. Eles querem é amalgamar tudo!…

Por outro lado, temos a questão fundamental do traçado da via. Esta questão é central nas relações “ferroviárias” com o estado vizinho desde meados do século XIX, tendo começado até, com uma discussão sobre a largura da via. Originalmente quando se fez a ligação com a Espanha a largura da via-férrea não era a mesma já que em Lisboa se temeu que os espanhóis embarcassem uma divisão do exército num comboio e chagassem à capital portuguesa em poucas horas. Mas isso era quando o governo português ainda tinha preocupações de defesa ….

De facto o que interessa a Portugal, em termos de caminho-de-ferro é atravessar a Espanha o mais rapidamente possível até chegar aos Pirinéus. À Espanha interessa exactamente o contrário e interessa-lhes sobretudo que as comunicações passem por Madrid, centro radial e geocêntrico da Península Ibérica. Tudo isto deu origem, ainda no século XIX a uma interessante polémica entre um capitão de infantaria e S. Majestade o Rei D. Pedro V, nas páginas da Revista Militar. Mas isso passava-se no século XIX, um século de decadência…

A nossa falta de visão e, ou, cobardia política, vai ao ponto de beneficiar os eixos Lisboa-Madrid e Porto-Vigo(!), quando o interesse nacional devia centrar-se no percurso Lisboa – Porto e Lisboa – Faro, o que em termos de custo/eficácia o “Alfa” e o “Intercidades” fazem muito melhor. E quanto a atravessar a Península que por camiões TIR ou por caminho-de-ferro, seria muito melhor apostar no transporte marítimo e, nalguns nichos, no transporte aéreo. Mas para isso era preciso que em Lisboa os políticos soubessem alguma coisa do seu ofício… Meus caros concidadãos, estas coisas são importantes.

O Ronaldo ir para o Real Madrid, por seu lado e em rigor, não tem importância alguma.

João José Brandão Ferreira
TCor/pilav (Ref)


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