Publicado por: Real Trás-os-Montes e Alto Douro | Fevereiro 4, 2010

Comemorações do Centenário da República – Uma visão distorcida da História

No dia 31 de Janeiro tiveram início oficialmente as comemorações do Centenário da República, com a participação dos três principais órgãos de soberania, o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República e o Primeiro-Ministro. Estas comemorações estão a causar larga repercussão nos meios políticos, intelectuais e na comunicação social, motivo pelo qual apresento aqui uma reflexão a esse respeito.

Esta data foi escolhida simbolicamente para o início das comemorações do Centenário, pretendendo evocar-se a primeira revolta gorada do movimento revolucionário que teve lugar a 31 de Janeiro de 1891 no Porto, o qual pretendia derrubar a monarquia multissecular fundada por Dom Afonso Henriques em 1143.

Em Janeiro deste ano, por ocasião da apresentação oficial do programa das comemorações do Centenário da República, os responsáveis da Comissão Oficial para as Comemorações apelaram à participação activa dos cidadãos nos múltiplos actos oficiais que irão decorrer até 2011.

A avaliar pela escassa participação popular nas cerimónias do passado dia 31 de Janeiro no Porto, pode desde já antever-se que a adesão popular às referidas comemorações irá ficar certamente muito aquém das expectativas dos seus organizadores.

E é fácil perceber porquê.

Se tiver a curiosidade e a paciência de consultar o programa oficial das comemorações do Centenário da República, aperceber-se-á de imediato que o que está a ser comemorado e exaltado neste centenário é o período da 1ª República, visto não ser feita uma referência pormenorizada ao período que decorreu entre 1926 e 1974, ou seja, período durante o qual vigorou a 2ª República.

De resto, a referência a este período foi hábil e propositadamente omitida dos discursos proferidos no dia 31 de Janeiro no Porto, tanto pelo Comissário para as Comemorações do Centenário, Dr. Artur Santos Silva, como pelo Primeiro-Ministro, e sobretudo pelo Presidente da República.

Goste-se ou não do período durante o qual decorreu a 2ª República, que abrangeu a Ditadura Militar de 1926 a 1933 e o Estado Novo de 1933 a 1974, e independentemente da análise política ou ideológica que possa fazer-se sobre o Estado Novo, a qual não cabe no espaço reduzido desta crónica, fica desde logo claro que os organizadores das comemorações do Centenário omitiram deliberadamente quase cinco décadas da história da República. Uma tal atitude leva-me a afirmar que os portugueses estão a assistir a uma lavagem de um período da História do nosso País.

Esta atitude inaceitável e incompreensível por parte dos responsáveis pelas comemorações oficiais do Centenário e também pelos mais importantes órgãos de soberania da República, deixa desde já antever uma visão redutora do que foi todo o período de cem anos da República, desde 1910 até hoje. Além disso tentará passar-se para a opinião pública portuguesa uma imagem sublimada da República, ou seja, procurar-se-á apresentar o regime político republicano imposto pela força em 1910 contra a vontade popular, como um regime que vinha estabelecer o advento de uma nova era, de liberdade e de fraternidade.

Ora, nada mais distante da verdade histórica, se nos recordarmos que para implantar a República, o movimento revolucionário teve de recorrer à violência mais hedionda e, num acto com uma forte carga simbólica, matou o Rei Dom Carlos e o Príncipe Real Dom Luiz Filipe a 1 de Fevereiro de 1908, há precisamente 102 anos.

Além disso, o regime republicano, imediatamente após a sua implantação, desencadeou uma metódica e inexorável perseguição à Igreja Católica e aos católicos, aos seus costumes e tradições. Ao contrário do que afirmam neste centenário os herdeiros do regime republicano, a República não nasceu como um regime de todos, mas como um regime sectário de poucos contra a maioria dos portugueses.

Como referia o Rev. Pe. Gonçalo Portocarrero Almada no passado dia 1 durante a homilia na Missa na Igreja da Encarnação, em Lisboa, que assinalou o 102º aniversário do Regicídio: “Triste regime o que nasce de mãos assassinas, tingidas com o sangue inocente de dois dos maiores mártires da história de Portugal: El-Rei D. Carlos e o Príncipe Real!” (…) talvez não seja temerário afirmar que o espírito laicista de outrora permanece vivo no regime que, talvez por se identificar tanto com os seus centenários fundadores, se presta a festejá-los com tanta pompa e circunstância, a expensas do exausto erário público. Não obstante as convicções cristãs da grande maioria dos portugueses, insiste-se numa política contrária à mais elementar liberdade, através de medidas que, embora não hostilizando directamente a Igreja Católica, procuram a sua destruição. Não se impede formalmente a acção da Igreja, mas silencia-se a sua voz, atenta-se contra o seu magistério e contra as suas instituições.”

Como aceitar, pois, que um regime que nasceu sob o signo do terror seja comemorado com pompa e circunstância ao fim de 100 anos?

José Filipe Sepúlveda da Fonseca, in Crónicas da Universidade


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