Publicado por: Real Trás-os-Montes e Alto Douro | Outubro 8, 2010

A SILVA, O POVO DO CAMPO E O POVO DA CIDADE

Filho, neto e bisneto de lavradores, desde cedo aprendi a fugir das silvas. Trouxe a sua repulsa para a cidade, onde estudei, e mantive o desagrado para com tão odienta planta. No regresso reforcei a minha convicção. De facto estorva, empecilha e pica. Comparado, o escarambunheiro é pêra doce.

Na cidade não há muita, dado os jardins serem cuidados, e talvez por isso seja menos conhecida. O normal utilizador dos jardins, no período de Inverno, em que não há quase flores, confunde-a com as roseiras, parente próximo mas de outro gabarito. Aquela tem picos, lança ramos longos, parecidos… não é de estranhar que a confundam. No entanto é expurgada com mestria pelos jardineiros, meus parentes na área de cuidar da terra e, sendo cuidados os jardins, não há muita, na cidade.

As roseiras, essas sim, dão rosas, bonitas, lindas, com um aroma inigualável. Os cavalheiros à antiga ofereciam-nas às senhoras, por amizade, galanteio ou corte. São alegres, têm muitas cores. Sua Alteza Real o Príncipe Herdeiro da coroa Inglesa, diz-se ser um grande conhecedor da sua criação e até por isso se demonstra ser uma flôr de Príncipes e Reis. Há milhentas variedades conhecidas, e eu gosto mais das rosas de Santa Teresinha. São pequeninas, brancas e em grande quantidade e a planta cresce muito, faz um bonito caramanchão.

A silva não. A silva simula e engana. A silva pica muito e não presta. A silva está para a roseira, como o joio está para o trigo. Pessoalmente estou certo que terá papel determinante no apocalipse.

A silva é trepadeira, parasita árvores e arbustos. Sózinha, rasteja e espalha o seu mal só pelo chão, come o pó. Não se ergue, vibrante e vistosa. Fica ao nível das serpentes, embora estas tenham mais má fama que proveito e, pelo menos, têm coluna vertebral, podem erguer-se por curtos períodos de tempo. Aliás são conhecidas desde os acontecimentos do Paraíso, já não enganam ninguém. A silva não. No meio urbano é mal conhecida e engana os incautos ou ingénuos. Não deve ser confundida com a madressilva, ornamental e aromática, com utilidade até na medicina naturista.
Mas dizia que é parasita. Precisa de outas plantas para se erguer. Enleia-as, estrangula-as, retira-lhes o viço, e tudo isto para ter o calor do sol só para si, sem se esforçar para o merecer, é egoísta. Os seus picos podem fazer cortes profundos, dolorosos, é perigosa. Não dá flor, é incompetente. Espalha os vícios pelo canteiro e pelo campo produtivo, é destruidora.

O Povo do campo conhece-a bem. Começa com uns botões pequenos (roseiras????) e depois espalha o mal à sua volta. Trepa pelas oliveiras e, se lhe dão tempo, envolve toda a árvore, acabando por ficar um olival irreconhecível. Não dá mais azeitona e perde a sua função. É necessário cortá-la permanentemente, extirpá-la dos campos, para deixar as oliveiras vingar.
Os próprios caçadores as temem. Pobre daquele que, na faina da caça, precise de passar por um mato infestado de silva… chega a ter de regressar ao ponto de onde partiu, após canseiras, picadas e golpes inúteis. Talvez só a caça tenha algo a agradecer-lhe, o refúgio face aos predadores.
Nas matas é outro enguiço. Cresce descontrolada, enleia matos baixos e cria uma teia de material inflamável, com elevada carga térmica, que propaga incêndios e impede a passagem de quem os apaga.

Os produtores de uvas e vinho não ignoram o seu carácter. Tudo faz para os levar a arrancar as vinhas. As roseiras, essas sim, até são utilizadas como vigilantes da entrada de pragas nas parreiras, como o oídio, não são como a silva, que para nada presta. E para mais são da mesma família… O oídio está para a rosa como a filoxera para a videira e a silva para a vinha. O oídio, a filoxera, a silva, são sinónimos de pobreza e má sorte.

O silvado, como é conhecido o conjunto da silva e dos seus tentáculos, é mesmo utilizado como sinónimo de abandono, dando origem a expressões como “aquilo é um silvado” ou “está tudo entregue à silva” . Nem as cabras a querem.
Outras culturas poderia recordar, mas já vai longa a dissertação. Alguém já me sugeriu, homem idoso e lavrador de bom senso, que a silva pode ser a própria prova da teoria da evolução: a silva não teria sido criada por Deus, mas antes seria fruto de uma eventual involução Darwiniana bem sucedida, na escala das pragas. Deus não quereria criar tal coisa…

Por muito que me custe a confissão, porque a verdade deve sempre ser dita, resta-me tentar sublimar a lástima, que é ser silva. É que tem três utilidades, aplicando-se, ainda, muito bem uma directiva ecológica.
A primeira é que é um excelente meio de evitar que os bovinos fujam para pasto alheio: devidamente cortadas e secas, dipõem-se em camadas nas extremidades dos pastos, servindo como vedação de arame farpado natural, qual campo de concentração bovino. É o Reciclar.
A segunda é que dão amoras…mas a que custo. E não o fazem para nosso bem, mas para se reproduzir. E só em Setembro, quando há uma enorme variedade de frutas. E não há duas épocas! E para as apanhar, picamo-nos! E não há colheita mecânica disponível, o que encarece muito o produto. É um grande esforço, tirar algum resultado prático da silva. Por mim limito-me às framboesas, morangos e amoras de amoreira, todos a abarrotar de antioxidantes, sem picos e que frutificam durante muito mais tempo. É o Reduzir.

Em terceiro lugar são óptimas para assar castanhas, depois de secas. Chegado o mês de Outubro, retiram-se as silvas secas das vedações e queimam-se para assar castanhas. O cheirinho é divinal. Nos fins de tarde de outono as labaredas bruxuleantes da silva a arder fazem um efeito magnífíco. É o Reutilizar.
E é assim que a própria prática da ecologia rejeita a silva, enquanto espécie a proteger.
Deixemo-la então bruxulear para sempre, ardendo bela e longe das mãos e dos campos (e ainda assim conseguem estourar castanhas) pois, não sendo a silva um ser racional, tal não pode ser confundido com um auto de fé.
Como nas modernas estações de tratamento de lixo, a silva pode, assim, beneficiar de alguma redenção, servindo para assar castanhas, fornecer amoras caras, vedar propriedades aos bovinos, e fornecer protecção à caca, que vive à sua sombra. Fraco consolo.
Invade-me a melancolia com um pensamento final: propaga-se pelas raízes e caules. Se extirpamos um pé-mãe, ficam sempre muitos botõezinhos inaparentes ao redor, à espera de condições adequadas. BRRRRRRRRRR (pronunciar com um arrepio na espinha).
Antes cultivar cicuta que, de certo modo, também tem tradições na família e várias utilidades práticas.

Nota final – Taxonomistas de renome consideram qua A silva deverá ser referida na língua portuguesa como O silva, dado que a sua nomenclatura taxonómica (Rubus ulmifolius) o aconselha.

MC, Manel Feitor, 25 de Setembro 2010


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